Personagens
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cada entrevistado.
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Dom Paulo Evaristo Arns
Cardeal-arcebispo emérito de São Paulo, 82 anos
Paulo Evaristo Arns nasceu em Forquilhinha, no município de Criciúma, em uma
família de 13 irmãos. Ordenou-se sacerdote franciscano em 1945, em Curitiba,
Paraná. Formou-se em letras na Universidade de Paris, França.
Começou a trabalhar lecionando no seminário da cidade paulista de Agudos. Atuou
como vigário em Petrópolis, Rio de Janeiro, até ser nomeado bispo auxiliar da
Arquidiocese de São Paulo, em 1966. Tornou-se Arcebispo da cidade em 1970 e
Cardeal em 1973.
Ligado aos setores progressistas da Igreja Católica, criou, no mesmo ano, a
Comissão de Justiça e Paz da arquidiocese, que tem papel de destaque na defesa
dos perseguidos pelo regime militar.
Em 1975 foi um dos celebrantes do ato ecumênico em memória do jornalista
Vladimir Herzog, morto pelos órgãos da repressão.
Na década de 80 apoiou os movimentos pela democracia no país. Quando completou
75 anos, em 1996, pediu demissão do cargo de cardeal-arcebispo de São Paulo,
como determinavam as regras da Igreja. Deixou a arquidiocese em 1998, mas se
mantém em atividade.
Escreve colunas para três jornais de São Paulo, participa de programas de rádio
nas emissoras América e Nove de Julho e reza a missa dominical no Hospital
Geriátrico Pedro II, da Santa Casa de Misericórdia.
Marília Medalha
Cantora, 59 anos
A cantora Marília Medalha nasceu em Niterói em 1944. Conheceu os músicos Tião
Neto e Sergio Mendes durante a juventude, e com eles se apresentava em alguns
lugares como cantora na década de 60. Participou do espetáculo "Arena Conta
Zumbi", em São Paulo, no ano de 1965, no qual recebeu prêmios por sua atuação.
Fez temporada ao lado do Tamba Trio e de Edu Lobo e defendeu sua composição
"Ponteio" (com Capinam) no Festival de 1967, da TV Record, que levou o primeiro
lugar. No ano seguinte conquistou o segundo lugar com "Memórias de Marta Saré"
(Edu Lobo/ Gianfrancesco Guarnieri).Trabalhou, também, ao lado de Toquinho e
Vinícius de Moraes, excursionando pelo Brasil, Argentina, Uruguai e França na
década de 70.
Teve seu ex-marido, o dramaturgo Izaías Almada, preso por participar da luta
armada, e nesse período desiste de fugir para o exílio para prestar ajuda a ele,
e a diversos presos políticos. Nessa época, defendeu diversas composições de
Gonzaguinha, a maioria letras de protesto contra o regime. Compôs e gravou
músicas de sua autoria em vários de seus discos. Vinícius foi seu parceiro em
"Valsa para o Ausente", "O Grande Apelo" e "Encontro e Desencontro".
Hoje, Marília vive reclusa, desiludida com o panorama atual da música
brasileira, mas tem feito aparições esporádicas.
Durante a entrevista, Marília nos concedeu um presente: uma faixa inédita ainda
não lançada, "Vejam Só", em que ela canta letra de Márcio Proença e
Gianfrancesco Guarnieri, musicada por Wagner Tiso.
Nilda Maria
Atriz, 68 anos
Nascida em 1935, na cidade de Santa Maria (RS). Começou desde
cedo no teatro, mas só aos 18 anos subiu em um palco profissionalmente.
Participou da fundação do teatro Equipe, em 1958, com Paulo José, Paulo César
Pereio entre outros. Chegou à cidade de São Paulo em 1959, onde participou de
diversas peças do teatro de Arena, TBC, Oficina, Cacilda Becker e Ruth Escobar.
Fazia parte de uma linha de apoio ao movimento armado, protegendo utensílios e
pessoas suspeitas.
Fez a personagem de uma líder revolucionária (Chantal) na montagem de “O
Balcão”, de Jean Genet, o que lhe deixou sobre a mira da polícia política a
partir de 1970. Foi presa e torturada no DOPS durante 6 meses, de onde saiu
muito traumatizada.
Trabalhou com muitos diretores famosos, entre eles Flávio Rangel, Antunes Filho
e Zé Celso Martinez.
Em 1998 participou da peça “Lembrar é Resistir”, parte da comemoração do
aniversário da Anistia. A montagem foi encenada no cárcere do prédio do DOPS, o
que finalmente lhe ajudou a lidar com seus mais fundos traumas.
Hoje, Nilda ministra aulas de teatro para atores e jornalistas. Nos recebeu com
muita cortesia, para falar de uma experiência de vida que, se não prazerosa,
pode servir de lição para muitos.
Henry Sobel
Rabino, 59 anos
Nasceu no ano de 1944 em Lisboa, Portugal, lar adotado por seus pais
após fugirem do nazismo na Bélgica.
Após a guerra, deixou o país com a família e se estabeleceu em Nova York, nos
Estados Unidos, tornando-se cidadão norte-americano. Formou-se em literatura
hebraica no Jewish Institute of Religion. Graduou-se mestre em letras e
ordenou-se rabino em 1970, quando foi convidado para assumir, no Brasil, a
posição de rabino na Congregação Israelita Paulista. Em seguida tornou-se
professor de estudos judaicos na Universidade de São Paulo (USP), onde trabalhou
até 1975.
Nesse ano desafiou o regime militar ao se negar a enterrar Vladimir Herzog na
área de suicidas, refutando, assim, a explicação dos agentes do DOI-CODI de que
o jornalista se suicidara na cela, depois de ser preso por supostas ligações com
o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1981, assumiu a coordenação da Comissão
Nacional de Diálogo Religioso Católico-Judaico, órgão da Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB). Em 1983 tornou-se presidente do Rabinato da
Congregação Israelita Paulista.
Em 1998 assumiu a presidência da Comissão de Ética e Direitos Humanos da
Confederação Israelita do Brasil.
No Brasil, destacou-se como uma das figuras religiosas mais importantes das
últimas três décadas, graças a sua abertura ao diálogo com outras religiões e
suas posições progressistas, o que nos ajudou a esclarecer o papel das igrejas
na época do regime militar.
Izaías Almada
Escritor, dramaturgo e roteirista, 61 anos
Izaías Almada, nascido em 1942, Belo Horizonte (MG), ligou-se a grupos teatrais
ainda em sua cidade natal.
Veio para São Paulo em 1965, onde tornou-se assistente de encenação de Augusto
Boal, no musical Opinião.
Nessa época dirigiu algumas peças e participou como ator do espetáculo Arena
Conta Zumbi, além de trabalhar como jornalista na Folha de São Paulo.
Foi preso em 1969, como militante da Vanguarda Popular Revolucionária. Como
dramaturgo, escreveu o argumento para cinema Homeward (uma história sobre
imigrantes portugueses na América).
Em 1995 , recebeu o Prêmio Vladimir Herzog
de jornalismo com a peça para teatro Uma Questão de Imagem e escreveu os
romances A metade arrancada de mim e Clarão da América.
Em 1999, escreveu com Analy Alvarez o texto teatral Lembrar é Resistir, para a
inauguração do Memorial da Liberdade (antigo prédio do DOPS - SP) em comemoração
aos 20 anos da lei da Anistia. Recentemente, escreveu a peça Pai, sobre a
história de uma família que descobre o corpo do pai, desaparecido político da
época do regime militar. Atualmente escreve artigos para a revista Caros Amigos,
e continua a trabalhar em novos textos teatrais.
Paulo Markun
Jornalista, 50 anos
Paulo Markun, nascido no ano de 1953, é paulistano e começou sua carreira em
1971. Quando ainda estava na faculdade , trabalhava no DCI (Diário do Comércio e
Indústria) de São Paulo e, logo depois, no jornal O Estado de São Paulo.
Trabalhou nos principais veículos de comunicação do Brasil e criou a edição
paulistana do Pasquim.
Atuou em jornais de esquerda como Versus e Opinião, onde teve o primeiro contato
com Vladimir Herzog. Os dois se veriam mais tarde, no departamento de jornalismo
da TV Cultura, onde foi chefe de reportagem em 1975.
Entrou para o Partido Comunista Brasileiro e, como militante do PCB, acabou
preso em 1975, junto com sua esposa Diléa Frate.
Além de trabalhar como jornalista, Markun escreveu seis livros: D. Paulo
Evaristo Arns, cardeal do povo; A máfia manda flores - a morte de Mariel
Mariscotte; Vlado - Retrato da Morte de um homem e de uma época, sobre a
morte de Herzog pelo Exército brasileiro, em outubro de 1975, Como perder as
eleições; Anita Garibaldi, A Heroína Brasileira e Muito além de um sonho,
a história da Unisul.
Atualmente reside em Florianópolis (SC). Trabalha na agência de comunicação
"Deadline", apresenta o programa Roda Viva, da TV Cultura (SP), e realiza
documentários para televisão.
Percival de Souza
Jornalista, 60 anos
Percival de Souza, nascido no ano de 1943, é natural de Braúna (SP), e começou a
trabalhar cedo, o que faz dele um jornalista com mais de 30 anos de profissão.
Foi um dos fundadores do Jornal da Tarde, onde trabalhou sob a censura instalada
dentro da redação durante o regime militar dos anos 70.
Durante essa época, cobriu as atividades do Esquadrão da Morte, temida
organização marginal do regime militar, para o JT. Em razão desse trabalho, foi
enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Mais tarde escreveu dois livros
esclarecedores sobre o período da repressão: Autópsia do Medo, a biografia do
delegado Sérgio Paranhos Fleury, e Eu, Cabo Anselmo, uma entrevista com o maior
agente duplo a serviço do regime militar. Ganhou quatro prêmios Esso de
Jornalismo por suas reportagens. Especializou-se em jornalismo investigativo e
nas áreas de segurança e criminologia.
Escreve, esporadicamente, para alguns jornais de São Paulo, para a revista
Época, e trabalha na TV Record como repórter e comentarista da área criminal.
Seu último livro foi Narcoditadura, sobre o caso da morte do jornalista Tim
Lopes, em junho de 2001.
Clarice Herzog
Socióloga, 62 anos
Clarice Herzog, nascida no ano de 1941, é natural de São Paulo. Talvez tenha
passado pelo maior dos dramas pessoais na época do regime militar. Seu marido, o
jornalista Vladimir Herzog, foi ao DOI-CODI espontaneamente para atender a um
chamado para prestar esclarecimentos e morreu nas mãos do Exército Brasileiro,
em outubro de 1975.
Logo depois Clarice protagonizou um caso inédito na Justiça: moveu uma ação
declaratória pela Justiça Civil, junto com seus dois filhos, responsabilizando a
União pela prisão e morte de Vlado. Era a primeira vez que uma viúva não
pleiteava indenização, mas a declaração de responsabilidade da União. O
resultado saiu em 1978, e Clarice contestou a versão original de suicídio e
declarou a União responsável pela morte de Herzog e improvou o laudo médico
original. Isso inspirou Eunice Paiva e Tereza Fiel Filho, respectivamente,
viúvas de Rubens Paiva e Manuel Fiel Filho, também mortos em situações
semelhantes, a entrarem com uma ação judicial idêntica.
Hoje, Clarice presta assessoria especializada em pesquisa de mercado pela
empresa que leva seu nome.
Está casada com o publicitário Gunnar Carioba, e ainda carrega a dor daqueles
dias, mas não se abstém para falar de seu drama, pois tem ciência de que a morte
de seu marido abriu caminho para acabar com a tortura institucionalizada no
Brasil.
Audálio Dantas
Jornalista, 73 anos
O alagoano Audálio Dantas iniciou sua carreira como repórter em 1954, na Folha
de S. Paulo. Em 1959, foi convidado para trabalhar na revista "O Cruzeiro", a
principal do país na época, onde permaneceu por sete anos, quando passou para a
revista "Quatro Rodas", da qual foi editor e redator chefe.
Durante uma viagem, que serviria para preparar um roteiro turístico da Copa do
Mundo de 1970, no México, ele não contava com uma guerra entre Honduras e El
Salvador. Deixou de lado o roteiro turístico e virou correspondente de guerra
para a revista Veja. Foi o único jornalista brasileiro a acompanhar a Guerra do
Futebol do começo ao fim. Deixou o cargo na revista Quatro Rodas em 1969 para
voltar a ser repórter, dessa vez em Realidade.
Presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, em 1975, Dantas
destacou-se por sua atuação na resistência ao regime militar. Fez do Sindicato
referência nacional na luta pelas liberdades democráticas ao denunciar o
assassinato do jornalista Vladimir Herzog numa prisão do Exército,
desmascarando, assim, a farsa oficial de suicídio.
Elegeu-se deputado federal por São Paulo no ano de 1979, e presidente da
Federação Nacional dos Jornalistas, no ano de 1983. Presidiu ainda a Imprensa
Oficial de São Paulo e o Conselho da Fundação Cásper Líbero. É autor de três
livros, um deles intitulado O circo do desespero (1976), onde reúne suas
principais reportagens. Além disso, organizou também a coletânea Repórteres.
Marcos Horácio Dias
Sociólogo e Historiador, 31 anos
Marcos
Horácio Dias, nascido no ano de 1972, é natural da cidade de São Paulo. Mestre
em História Social, formado pela USP, profundo conhecedor da Cultura Barroca,
professor universitário de História da Produção da Imagem, Sociologia,
Antropologia, Teoria Política e Realidade Sócio-Política Brasileira. Atua também
como professor de História da Arte para Ensino Fundamental, pesquisador da
cultura e da realidade mineira, tem pós-graduação em Arte e Cultura Barroca
(Instituto de Filosofia, Arte e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto),
habilitação em História e é Bacharel em Ciências Sociais.
Já ministrou cursos de História da Arte e de Barroco Mineiro, auxiliou pesquisas
na Universidade de São Paulo, o que culminou com a publicação de “Bens
Históricos Tombados da Universidade de São Paulo” e trabalhou no Departamento de
Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura (S.Paulo) de 1994 a
1996. Entre outros trabalhos, desenvolveu textos e prestou consultoria em arte
para a publicação do cd-rom sobre a vida da artista plástica Iole di Natali.
Marcos tem particular interesse pelo período da ditadura militar, por isso
construiu vasta bagagem de aprendizado neste campo. Segundo ele, apesar de toda
a censura que existia nessa época, os artistas, com muita irreverência,
driblavam os censores e sem saberem deixaram um rico acervo musical e
intelectual para a nossa história.
Em sua entrevista, nos esclareceu pontos importantes sobre os motivos históricos
e sociais da afirmação do regime militar no Brasil. Marcos leciona suas aulas no
Centro Universitário Sant´Anna, e como todo bom professor e sociólogo, contagia seus alunos
e provoca grande interesse pela verdadeira história do país.
Erasmo
Dias
Vereador, coronel reformado, 79 anos
Erasmo Dias, coronel reformado, nascido no ano de 1924, em São Paulo, gosta de
se auto-intitular “testemunha viva da história”. Há motivos para essa afirmação.
Atravessou grande parte da história do país desde que Getúlio Vargas assumiu o
poder pela primeira vez.
Formado e licenciado em História pela USP e bacharel em Direito pela
Universidade da Guanabara, militou durante 35 anos de exército. Durante o regime
militar, Dias teve duas funções: foi um dos fundadores da ARENA na época do
bipartidarismo, delegou as primeiras caças aos comunistas depois de 1968, e
durante o governo Médici (1973) assumiu a Secretaria de Segurança Pública em São
Paulo. Sob seu comando os paulistanos experimentaram a pior época da repressão,
graças ao aparato da Polícia Civil e por sua fama de oficial linha-dura.
Hoje, Erasmo Dias é professor licenciado de economia. Trabalha com uma empresa
de segurança que treina vigilantes particulares e exerce o cargo de vereador do
Partido Progressista (PP) pela cidade de São Paulo.
Gilberto Natalini
Médico, Vereador, 51 anos
Gilberto Natalini, vereador, nascido no ano de 1952 , em São Paulo, é formado em
medicina e foi um dos presos políticos do regime militar.
Ativista estudantil pela UNE e pela UEE, tentava articular a reintegração das
escolas médicas, onde discutia o tema política.
Acusado de participar de uma facção política que praticava guerrilha urbana,
Natalini foi preso cerca de dezessete vezes durante os anos de repressão. Em uma
delas passou quatro meses na carceragem do DOPS, em São Paulo.
Atualmente, Natalini exerce a função de médico de forma solidária todos os
sábados, por uma promessa feita em cárcere anos atrás, além de ser vereador do
Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB) pela cidade de São Paulo, em seu
segundo mandato.
Heládio Campos
Professor, 55 anos
Heládio Campos, professor, nascido no ano de
1948, em Uberaba(MG), veio a São Paulo em busca de bons estudos. Assim que
chegou, começou a trabalhar em um banco da cidade, e logo se envolveu com
interesses dos trabalhadores, se filiando ao Sindicato dos Bancários. Por essas
atividades, foi detido e torturado no DOPS, passando pelo DOI-CODI e pelo
presídio Tiradentes, em 1972.
Suas lembranças são tristes e dolorosas. Heládio viu muitos amigos serem
torturados dentro do DOPS. Um deles foi morto, o japonês Luís Hirata, membro da
Ação Nacional Libertadora (ANL), organização de luta armada.
Hoje, Heládio é professor de Economia da Universidade de Uberaba.
Encontramos com ele em 2002, quando fazíamos uma visita às instalações do DOPS,
prédio agora reformado e transformado no Memorial da Liberdade. Começávamos a
fazer o trabalho “Lembrar é Resistir”. Heládio fazia uma visita ao Memorial e,
dentro das celas, nos concedeu esta entrevista e relembrou sua passagem pelo
prédio.